Em “Pare, olhe, escute! Aqui tem gente!”
Ele entrou em sala de aula para ensinar, mas quem aprendeu foi ele. O álbum “Pare, olhe, escute! Aqui tem gente!”, lançado em 14 de agosto, é o resultado dessa experiência transformadora vivida por Erick de Almeida, músico, cantor, compositor e arte educador paraibano.
O projeto ganha ampliação para o audiovisual nesta sexta-feira (21), com a chegada de clipe inédito da faixa-título e documentário sobre a produção do trabalho no contexto do Porto do Capim, bairro ribeirinho de João Pessoa que inspirou a criação do álbum. O álbum é a estreia solo de Erick, que anteriormente integrou o projeto do grupo Baluarte, através da gravadora paraibana Taioba Music.
Porto do Capim
A história toda começa em 2011, quando Erick foi convidado a participar de uma extensão universitária, envolvendo arte e educação, em uma escola pública infantil localizada na comunidade do Porto do Capim, às margens do rio Sanhauá, capital paraibana. O objetivo era construir uma proposta pedagógica que unisse a história local e as linguagens artísticas.
“Em 2013 montamos um experimento cênico chamado ‘Pare, olhe, escute! Aqui tem gente!’ que tinha como tema central o processo de ameaça, por parte do poder público, de retirada daquela comunidade de seu local de fundação”, explica Erick. “Essa problemática chegou na sala de aula e decidimos trabalhar a história local em diálogo com essa questão, trazidas pelas crianças, para sala de aula. Nessa oportunidade pude mesclar a brincadeira popular lembrada e praticada pelas crianças da comunidade com as reivindicações e desejos daquela população que passava por percalços”.
A partir daí muitas histórias foram sendo contadas – e cantadas! – e Erick então percebeu a importância daquele lugar. “Meu ânimo para compor se voltou para as muitas histórias de vida e de resistência da comunidade tradicional e ribeirinha do Porto do Capim”, ele reflete a respeito da comunidade homenageada no álbum.
As composições de “Pare, olhe, escute! Aqui tem gente!” falam de pertencimento, identidade, conexão com um território tradicional. “Sinto que estamos perdendo o vínculo com os lugares onde habitamos e com as pessoas que convivemos. Estamos perdendo relação com os símbolos, imagens, sonoridades e outros aspectos da cultura que nos caracterizam como comunidade, coletividade ou cidade. Acredito que o álbum provoca essas reflexões sobre a importância de reverter esse quadro de desconexão com nosso lugar”, comenta Erick.
Referências estéticas
No que diz respeito à sonoridade, o artista nos convoca pela MPB, mas pegando carona em elementos do samba, do xote, da ciranda, do coco, da capoeira, do baião, do congo de ouro, entre outros gêneros da cultura popular. Uma miscelânea de estilos extraídos das tantas referências que orbitam “Pare, olhe, escute! Aqui tem gente!”.
“Falo de gente da cena local, como Totonho, Adeildo Vieira, Cátia de França, Socorro Lira, Escurinho, Pedro Osmar, Paulo Ró, Chico Limeira, Milton Dornelas e também de artistas pernambucanos que escuto muito, como Siba, Lula Queiroga, Antônio Nóbrega, Flaira Ferro, Cordel do Fogo Encantado”, completa Erick. “Fora os grandes ídolos nacionais como Milton Nascimento, Djavan, Caetano, Gil…. Como sou um fazedor de canções, avalio que essa gente toda que escuto, de alguma forma me ajuda a criar”.
O artista educador. O educador artista.
De acordo com Erick, “Pare, olhe, escute! Aqui tem gente!” só existe porque ele permitiu viver com sinceridade dois ofícios ao mesmo tempo: o de artista e de educador. Perfis distintos, mas que se retroalimentaram de maneira intensa ao longo da feitura do álbum.
“Este trabalho só existe porque as crianças do Porto do Capim, ao se conectarem com a minha música, me ajudaram a reconhecer também o professor que sou. Inicialmente fui convidado para atuar como músico e compositor e com o tempo me apaixonei pelo fazer pedagógico, pela possibilidade de criar música junto com as crianças e outras pessoas da equipe do projeto”, adiciona Erick. “Hoje sempre repito, que o artista não existiria sem a segurança financeira que o professor proporcionou nestes últimos tempos, e o professor não resistiria ao cotidiano da sala de aula sem a poesia que o artista empresta dia a dia para a prática pedagógica”.
Como lição de casa, recomenda-se a escuta de “Pare, olhe, escute! Aqui tem gente!” e do clipe-documentário de sua faixa-título. Uma aula que serve para todos nós. “Espero que o público reconheça esse esforço, especialmente das mulheres do Porto de Capim, que estão enfrentando muitos interesses econômicos e lutando por um projeto de requalificação dialogado com as pessoas que vivem naquele espaço. Também torço que essas reflexões extrapolem nossas fronteiras, pois tem muita comunidade passando pelas mesmas ameaças de remoção para promover projetos que pouco tem haver com a cultura e identidade local. Que essas canções sejam vetores de sensibilização para este debate sobre território, identidade e memória”, reforça Erick.



Fotos: Uênia Barros
